1/19/2010

Eram nove horas da noite quando finalmente cheguei em casa. Moro numa rua de mão única bastante movimentada e bem perto de um shopping center. Para entrar na garagem do meu prédio é preciso vencer uma verdadeira corrida de obstáculos. Nunca sou a primeira, mas sempre acabo cruzando a linha de chegada.

Assim que embiquei o carro na entrada da garagem subterrânea vi meu filho adolescente conversando com uma garota, sentada em sua bicicleta, em frente ao prédio onde moramos.



Abri a janela para dar um alô e meu filho gritou:


- “Mãe! Essa é a garota do vaso!”


Olhei para ela, uma garota bonita, muito graciosa em suas tranças, na exuberante juventude de seus quatorze anos. Fiz um aceno para os dois e desci a rampa até o subsolo feliz da vida. Com aquela frase, uma pequena história havia se fechado e eu tinha sido o link, o elo entre aquela garota e meu filho.


Neste momento em que escrevo, estou na São Paulo de 2004, mas para explicar esta história é preciso voltar oito anos no tempo e milhares de quilômetros no espaço, até julho de 1996 em Israel, o ponto no tempo-espaço em que os quatro jovens Yair Goldfinger, Arik Vardi, Sefi Vigiser e Amnon Amir, fundaram uma nova empresa de Internet chamada Mirabilis.




Os quatro jovens perceberam, na época, que um número crescente de pessoas interagia com servidores web, navegando, fazendo downloads, trocando mensagens, porém esses milhões de pessoas estavam conectadas à Internet, mas não estavam interconectadas. Faltava apenas um elo perdido para que além de interagir com os servidores toda essa gente pudesse interagir entre si. O elo perdido era a tecnologia que permitiria que os internautas localizassem uns aos outros na rede e criassem canais de comunicação peer-to-peer (P2P, ou de parceiro-para-parceiro, numa tradução livre), de forma fácil, simples e direta. E foi assim que Yair, Arik, Sefi e Amnon criaram a tecnologia pioneira de comunicação instantânea.


Quatro meses depois de fundar a Mirabilis, foi lançada a primeira versão do ICQ, letras cuja pronúncia em inglês formam a expressão "I seek you" ou, "eu procuro você". Imediatamente um pequeno grupo de usuários adotou o programa e em pouquíssimo tempo uma reação em cadeia gigante explodiu, fazendo com que centenas, milhares e centenas de milhares de usuários adotassem o ICQ, gerando a maior taxa de download da história da World Wide Web.




A eficiência do aplicativo e as possibilidades de comunicação instantânea on-line geraram o maior case de Word-of-mouse, a famosa divulgação boca a boca. Não foi preciso anunciar o ICQ, ele falava por si só. Seus usuários apaixonados tornaram-se evangelizadores ferrenhos, divulgando o programa para todos os amigos, parentes, conhecidos, tanto no mundo real quando no virtual.


A Mirabilis criou toda uma nova filosofia de relacionamento que permite encontrar pessoas, saber se elas estão ou não disponíveis, receber alertas quando elas se conectam, além da troca de arquivos de imagem, texto, voz. Uma nova linguagem surgiu com o ICQ, com terminologia própria. Sem contar o som característico do oh-ho, reconhecido em qualquer lugar do mundo.


Em Maio de 97, segundo o próprio site, os adeptos do ICQ já eram 850 mil. Novos serviços foram criados e oferecidos aos usuários, na mesma velocidade que cresciam os downloads e os prêmios para o serviço.


Dois anos depois de ser fundada a Mirabilis foi comprada pela gigante America On-line, criando o ICQ Inc. e tornando seus fundadores merecidamente milionários.


O ICQ tornou-se a comunidade que mais cresce no mundo, o programa mais popular entre todos os downloads de todos os tempos, a maior comunidade multilínguas. Hoje, se você quiser se inscrever no ICQ como um novo usuário seu número de registro, o UIN, Universal Internet Number, estará acima dos 150 milhões.


Não sei precisar em que ano conheci o ICQ, mas foi pelo rádio, ouvindo um quadro sobre informática na rádio Jovem Pan AM. Em termos de Internet, faz muito tempo, porque meu UIN tem apenas sete dígitos e está na casa dos dois milhões (UIN - 2.748.040, ou para ficar parecendo um número de telefone, 274 8040). Dentro da comunidade do ICQ ter um número com sete dígitos ou menos denota um certo ar garboso, pois prova que a pessoa aderiu relativamente cedo.



Hoje existem muitos outros programas de comunicação instantânea como o Messenger da Microsoft, mais moderno e preferido por adolescentes de todo o mundo. Há também o AIM e outros softwares. Mas o ICQ ainda tem seu espaço no mundo da web.


Fato é que esses quatro rapazes criaram a Mirabilis e o ICQ em Israel, no ano de 1996, um programa que tenho até hoje instalado em meu computador, com o mesmo UIN e sei encontrar qualquer pessoa que faça parte deste imensa comunidade.



Foi assim que reconheci um número num vaso de plantas na esquina do meu prédio, numa manhã em que saí para correr pelo bairro, como costumo fazer diariamente. Assim que vi o UIN escrito à mão com giz de cera azul, sobre a tinta branca do vaso com uma palmeirinha, simpatizei com a nova forma de comunicação. A pessoa que usou o vaso para divulgar seu contato sabia que só quem fizesse parte da comunidade ICQ reconheceria o código e saberia como encontra-la.



Não costumo levar caneta e papel para correr, mas tenho o hábito de carregar uma câmera digital muito fina, um dos primeiros modelos da Casio Exilim, e decidi fotografar o vaso e o número para adiciona-lo à minha lista quando chegasse em casa e fazer contato com a pessoa.



Assim que terminei o percurso e cheguei em casa, conectei a câmera, subi a foto e adicionei o número, que não estava on-line. Em questão de minutos, um alerta me avisou que ela tinha acabado de se conectar.



Entrei em contato com ela, me apresentei e disse que tinha visto seu UIN no vaso de plantas. Ela achou graça. Disse que seu nome era Carol, que tinha quatorze anos e morava no bairro, num prédio próximo ao vaso. Pedi permissão para subir a foto no meu blog, divulgar seu icq e contar a história. Ele permitiu. Conversamos mais um pouco e eu disse que tinha um filho da mesma idade que ela. Carol disse que algumas de suas amigas estudavam na mesma escola que ele, mas ela não o conhecia.


A foto fez sucesso no blog. Muitos dos leitores adicionaram Carol, conversaram on-line com ela, fizeram amizade. Achei tudo muito simpático. E quando meu filho chegou em casa, passei o contato de Carol no ICQ pra ele. Os dois ficaram amigos, mas eu não soube do resto da história.



Até o momento que cheguei em casa, com o carro, e vi meu filho com aquela garota bonita, de tranças, sentada sobre sua bicicleta: a garota do vaso.



Nunca pensei que um vaso de plantas numa esquina pudesse ser usado como mídia, que um número fosse de fato universal, que dois adolescentes que moram no mesmo quarteirão fossem virar amigos graças a quatro jovens em Israel.



Mas aconteceu. E essa é a beleza da comunicação.
Adoro correr. Adoro me comunicar. Adoro a Internet.


Ps Publicado em Os Urbanitas. Fotos de 2004.

21 comentários:

Euemeusoutroseus.com disse...

Rosana... que estoria mais fofinha...muito legal isso...eu fui adepta do ICQ em 1997, mas pra ser sincera nao sei mais como resgatar meu UIN lembro que era 6 digitos e começava com 195...sera que vc me acha e me passa meu numero...rs

Ted disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ted disse...

Achei, que o final seria "e depois de um tempo começaram a namorar, hoje são casados e tem um filho"

glorinha disse...

Muito interessante!

Não sou do tempo do ICQ, sou do MSN e Twitter embora não tenha 14 anos e não more no seu bairro, adorei conhecer seu blog e poder saber mais de você.

Lu disse...

Te conheci através do happy hour e passei a frequentar o twitter e ICQ.
Gosto de seu estilo.

Viva disse...

Que linda estória! Parece coisa de filme, mas, ainda bem, é realidade.

Alaide disse...

Caramba! Que legal!! Até cinco ou seis anos atrás eu ainda tinha ICQ. Agora fiquei curiosa, minha conta não deve nem existir mais. :S kkk O messenger tomou conta.

Tatah disse...

Há um tempo, eu tentei de todas as maneiras me lembrar do meu UIN de 7 dígitos e que eu falava como número de telefone - quando os telefones em Minas ainda tinham 7 dígitos. Não lembrei. Criei outra conta para me procurar e não me encontrei. :( Acabei desistindo do ICQ, mas ainda morro de saudade.

Kalau disse...

Bela história- Já tô com o novo icq , mas preciso resgatar meu end de mail pra saber qual é minha senha. Meu UIN tb é Antiiiiiiiiiiiiiiigo 2104144 - preciso ligar um velho PC que tenho aqui com o ICQ velho tb e ver o config. [ ]´s

Veronica disse...

Olá Rosana,
Adorei esse texto!!! Eu não uso o ICQ a muito tempo. Ontem eu instalei a versão nova, eu nem acreditei que eu ainda lembro do meu UIN que também tem 7 dígitos!!

Beijos,
Verônica

Washington Ojuara disse...

Ao contrario de muita gente sempre tive sorte com as pessoas que conheci pela net. Entre elas uma namorada que faleceu de cancer ano passado. Nos conhecemos pelo icq atravez de outra amiga que nao conheci pessoalmente e morava em alagoas. Essa pessoa de Alagoas conheci em um chat de religião do UOL. []s.

Folhadoliveira disse...

Tempos românticos aqueles!...

Karine disse...

Achei seu blog por aí, e comecei a ler. Legal essa história, principalmente porque me identifico com ela, já que conheci meu noivo pela internet. Não pelo icq, mas pelo orkut. Ainda moro no Ceará, e ele em SP. Nos vemos sempre, eu vou a sp periodicamente e ele vem pra fortaleza sempre tbm...vivemos na ponte aérea, e casaremos esse ano. Internet é uma coisa muito bacana mesmo, né...eu tbm adoro essa comuncação, essa troca de vida entre os internautas. Eu tbm adoro a internet e tudo o que ela nos proporciona tão peculiarmente, que ñ poderíamos vivenciar se não fosse ela. Parabens pelo blog. Abraços desde o Ceará;

Luciano disse...

Eu sou um dos que conheceu essa pequena maravilha em 1998 e não largo dele até hoje, embora não use mais o cliente oficial (uso um cliente multiprotocolo freeware) mas ainda mantenho meu UIN, o primeiro e unico que registrei, o meu tem 8 digitos, foi registrado em 18 de novembro de 1998. Já esta quase parecendo whisky escocês ehehe.

A historia é muito legal e até fofinha como o pessoal já disse.

No caso do cliente que uso atualmente, fiz questão de utilizar todos os sons do velho icq 98. o oh-ho já faz parte da minha vida, tanto como toc-toc-toc quando uma pessoa conecta, não consigo imaginar meu cliente de mensagens sem esses sons, uso eles par todos os outros protocolos... msn, google talk, yahoo messenger e skype.

Anônimo disse...

Usei o ICQ em 2001 e com ele descobri uma enorme paixão na minha vida que durou até 2006,entre idas e vindas desse namoro desinstalei o ICQ,o namoro terminou mas restou essa memória afetiva de um programa bem legal...ho-ho!!!

Hugo disse...

Ola
É possivel matarmos a saudade do tempo em que usavamos o ICQ.
O programa que uso é o MSN mas já coloquei e uso o HoHo do INQ quando recebo mensagens.
Sem falar que coloquei o navio apitando quando alguém fica online.

Assim pude matar a saudade do tempo que internet era muito mais novidade.

Um forte abraço e caso queira saber mais como ter o som do ICQ no MSN segue o meu MSN hugoalex@oi.com.br
é só cadastrar

Thales disse...

Muito legal a estória. Tive ICQ, ainda lembro do UIN mas provavelmente esqueci a senha! Vou baixar e conferir. Fiquei muito surpreso e contente que o ICQ ainda está captando usuarios. Uma garota de 14 anos com ICQ é como se eu começasse no mundo dos games hoje com um ATARI. Muito bem Rosana. Gosto de você. ;-)

Anônimo disse...

I have found it on this website called [url=http://tipswift.com]tip swift[/url]. You can find it there.
cheers
edit: wrong thread,

CrisBiagio disse...

Rosana...

Gostei do texto, mas não é sobre ele que gostaria de falar. Queria tirar uma dúvida, sou professora de Literatura e analisando uma questão de vestibular, deparei-me com um fragmento adaptado de uma mensagem atribuída a Herbert Vianna. Procurando informações sobre a mensagem, deparei-me com uma informação de que o texto é de sua autoria. Será que poderia confirmar? Vaidade e Identidade

Leonardo disse...

Muito legal a primeira parte da história, só falta agora pintar o vaso...

Anônimo disse...

Very useful idea